sexta-feira, 3 de outubro de 2025

30.set.2025 às 14h30
Natalia Beauty - Multiempreendedora e fundadora do Natalia Beauty Group
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/natalia-beauty/2025/09/o-golpe-da-mentoria-feminina-e-a-infantilizacao-das-empreendedoras.shtml

O golpe da mentoria feminina e a infantilização das empreendedoras

Cobram fortunas por 'sabedoria' em PDFs de baixa qualidade

Ensinam a 'atrair clientes', mas não a calcular o fluxo de caixa

A explosão de "mentoras quânticas de negócios femininos" no Instagram brasileiro revelou um nicho perturbador: mulheres cobrando R$ 10 mil para ensinar outras mulheres a "despertar a deusa empresária interior" enquanto vendem planilha de Excel como "ferramenta sagrada de abundância financeira".

É a regra num mercado que descobriu que vulnerabilidade feminina dá mais lucro do que curso de trader.

Vou contar uma verdade desconfortável: a maior parte dessas mentoras de sucesso feminino nunca teve um negócio além de vender mentoria. É um esquema de pirâmide emocional onde cada "graduada" vira mentora para pagar o que investiu, criando uma corrente infinita de mulheres vendendo autoestima empresarial para mulheres.

Três mãos seguram celulares com telas iluminadas em frente a um grande logo colorido do Instagram desfocado ao fundo.

O script é sempre o mesmo. Primeiro vem o story chorando sobre como era infeliz no CLT. Depois a revelação divina no retiro em Bali, a descoberta do "propósito" e finalmente, a generosa decisão de compartilhar essa sabedoria mediante transferência via Pix em 12 x sem juros.

Conheci uma empresária que pagou R$ 8 mil num programa de "aceleração do feminino nos negócios". O conteúdo? Meditação guiada para "atrair cliente ideal", exercício de journaling (anotar pensamentos, sentimentos e experiências para autoconhecimento) sobre traumas de infância que bloqueiam vendas e uma aula sobre como precificar baseada em "energia do seu útero criativo". Ela tem uma confecção e precisava de gestão de estoque.

O mais cruel é que essas mentoras se aproveitam exatamente da insegurança que dizem combater. Mulheres que já sofrem com síndrome de impostora no mercado são convencidas de que precisam de mais um curso, mais uma imersão, mais uma jornada de autoconhecimento antes de serem "dignas" do sucesso.

Enquanto homens medíocres abrem negócio depois de ver três vídeos no YouTube, mulheres estão há dois anos se "preparando energeticamente" para empreender, gastando R$ 50 mil em cursos que misturam Canvas, Business, Model, com carta de tarô.

A indústria da mentoria feminina criou um paradoxo perverso: quanto mais "empoderada" a mulher fica, mais cursos ela compra. Por que o empoderamento vendido não é sobre construir competência real, mas sobre alimentar uma dependência emocional de validação externa empacotada como jornada interior.

Sabe o que nenhuma dessas mentoras ensina? Fluxo de caixa, precificação baseada em margem de contribuição, gestão tributária, capital de giro, as coisas chatas que realmente fazem um negócio sobreviver. Mas esse conteudo não vende. O que vende é promessa de transformação pessoal disfarçada de estratégia empresarial.

Tem mentora cobrando R$ 15 mil para ensinar "marketing do sagrado feminino". Na prática? Como fazer carrossel no Canva com fonte cursiva e foto com filtro vintage. Mas vem embalado em papo sobre "arquétipos de marca" e "storytelling da alma".

O resultado? Uma geração de empreendedoras que sabem tudo sobre "mindset de abundância" mas não conseguem calcular o próprio DRE, que investem mais em "desenvolvimento pessoal" do que em desenvolvimento de produto e que confundem terapia com consultoria empresarial.

Não estou dizendo que desenvolvimento pessoal não importa. Estou dizendo que cobrar R$ 20 mil para fazer roda de conversa sobre bloqueios emocionais e chamar isso de "mastermind empresarial" é charlatanismo com verniz de sororidade. 

A prova definitiva do golpe? Pergunta para qualquer uma dessas mentoras quantas alunas delas construíram negócios sustentáveis que não sejam vender mentoria. O silêncio vai ser ensurdecedor.

Mas o mercado continua bombando, porque é mais fácil vender sonho para mulher desesperada do que ensinar ela a ler um balanço patrimonial. É muito mais lucrativo convencer alguém de que o problema é espiritual quando na verdade é falta de conhecimento técnico.

Empoderamento feminino real seria ensinar mulheres a identificar esses golpes emocionais. Mas isso não dá match com a estética de feed que vende programa de 5 dígitos.

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