https://www1.folha.uol.com.br/colunas/natalia-beauty/2025/09/o-golpe-da-mentoria-feminina-e-a-infantilizacao-das-empreendedoras.shtml
O
golpe da mentoria feminina e a infantilização das empreendedoras
Cobram fortunas por
'sabedoria' em PDFs de baixa qualidade
Ensinam a 'atrair clientes', mas não a calcular o fluxo de caixa
A explosão de
"mentoras quânticas de negócios femininos" no Instagram brasileiro
revelou um nicho perturbador: mulheres cobrando R$ 10 mil para ensinar outras
mulheres a "despertar a deusa empresária interior" enquanto vendem
planilha de Excel como "ferramenta sagrada de abundância financeira".
É a regra num mercado
que descobriu que vulnerabilidade feminina dá mais lucro do que curso de
trader.
Vou contar uma
verdade desconfortável: a maior parte dessas mentoras de sucesso feminino nunca
teve um negócio além de vender mentoria. É um esquema de pirâmide emocional
onde cada "graduada" vira mentora para pagar o que investiu, criando
uma corrente infinita de mulheres vendendo autoestima empresarial para
mulheres.
Três mãos seguram
celulares com telas iluminadas em frente a um grande logo colorido do Instagram
desfocado ao fundo.
O script é sempre o
mesmo. Primeiro vem o story chorando sobre como era infeliz no CLT. Depois a
revelação divina no retiro em Bali, a descoberta do "propósito" e
finalmente, a generosa decisão de compartilhar essa sabedoria mediante
transferência via Pix em 12 x sem juros.
Conheci uma
empresária que pagou R$ 8 mil num programa de "aceleração do feminino nos
negócios". O conteúdo? Meditação guiada para "atrair cliente
ideal", exercício de journaling (anotar pensamentos, sentimentos e
experiências para autoconhecimento) sobre traumas de infância que bloqueiam
vendas e uma aula sobre como precificar baseada em "energia do seu útero
criativo". Ela tem uma confecção e precisava de gestão de estoque.
O mais cruel é que
essas mentoras se aproveitam exatamente da insegurança que dizem combater.
Mulheres que já sofrem com síndrome de impostora no mercado são convencidas de
que precisam de mais um curso, mais uma imersão, mais uma jornada de
autoconhecimento antes de serem "dignas" do sucesso.
Enquanto homens
medíocres abrem negócio depois de ver três vídeos no YouTube, mulheres estão há
dois anos se "preparando energeticamente" para empreender, gastando
R$ 50 mil em cursos que misturam Canvas, Business, Model, com carta de tarô.
A indústria da
mentoria feminina criou um paradoxo perverso: quanto mais
"empoderada" a mulher fica, mais cursos ela compra. Por que o
empoderamento vendido não é sobre construir competência real, mas sobre
alimentar uma dependência emocional de validação externa empacotada como
jornada interior.
Sabe o que nenhuma
dessas mentoras ensina? Fluxo de caixa, precificação baseada em margem de
contribuição, gestão tributária, capital de giro, as coisas chatas que
realmente fazem um negócio sobreviver. Mas esse conteudo não vende. O que vende
é promessa de transformação pessoal disfarçada de estratégia empresarial.
Tem mentora cobrando
R$ 15 mil para ensinar "marketing do sagrado feminino". Na prática?
Como fazer carrossel no Canva com fonte cursiva e foto com filtro vintage. Mas
vem embalado em papo sobre "arquétipos de marca" e "storytelling
da alma".
O resultado? Uma
geração de empreendedoras que sabem tudo sobre "mindset de abundância"
mas não conseguem calcular o próprio DRE, que investem mais em
"desenvolvimento pessoal" do que em desenvolvimento de produto e que
confundem terapia com consultoria empresarial.
Não estou dizendo que desenvolvimento pessoal não importa. Estou dizendo que cobrar R$ 20 mil para fazer roda de conversa sobre bloqueios emocionais e chamar isso de "mastermind empresarial" é charlatanismo com verniz de sororidade.
A prova definitiva do
golpe? Pergunta para qualquer uma dessas mentoras quantas alunas delas
construíram negócios sustentáveis que não sejam vender mentoria. O silêncio vai
ser ensurdecedor.
Mas o mercado
continua bombando, porque é mais fácil vender sonho para mulher desesperada do
que ensinar ela a ler um balanço patrimonial. É muito mais lucrativo convencer
alguém de que o problema é espiritual quando na verdade é falta de conhecimento
técnico.
Empoderamento feminino real seria ensinar mulheres a identificar esses golpes emocionais. Mas isso não dá match com a estética de feed que vende programa de 5 dígitos.

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